A casa de Camões está em Constância

12 jul 2019



A relação da população de Constância com a figura do grande escritor português é inquestionável e genuína. A época quinhentista na qual viveu, está enraizada na identidade colectiva do concelho.


Os países reconhecem e homenageiam os seus grandes escritores. É uma afirmação cultural e de identidade. Se Espanha tem uma casa de Cervantes, se Inglaterra tem uma casa de Shakespeare, se Itália tem uma casa de Dante, porque é que Portugal não pode ter uma casa de Camões? Para que Portugal a tenha, porque ela existe, é preciso que a pequena Associação Casa-Memória de Camões, que vive no pequeno município de Constância, com limitados recursos, tenha os apoios devidos para dignificar o nome de Luís Vaz de Camões e a cultura portuguesa.


António Matias Coelho, historiador e presidente da Associação Casa-Memória de Camões

António Matias Coelho, historiador e presidente da Associação Casa-Memória de Camões



Camões é um dos pilares da identidade de Constância, que se encontra ao mesmo nível dos rios, da tradição dos transportes fluviais ou da Senhora da Boa Viagem. As Pomonas Camonianas, que começaram em 1994, são a maior expressão desse afecto. Entre os dias 9 e 11 de Junho, a vila recria o ambiente renascentista com figurantes trajados a rigor.


A relação de Constância com Luís Vaz de Camões remonta a meados do século XVI, aos anos 1547 e 1548, quando o escritor terá vivido na sua juventude na povoação de Punhete, agora conhecida como vila e concelho de Constância. Por esse motivo um grupo de entusiastas da obra do poeta decidiu criar a Associação Casa-Memória de Camões para homenagear a obra do maior autor português de todos os tempos, a língua e a cultura portuguesa.



Não existe prova documental da presença de Camões em Constância. A Associação Casa-Memória de Camões sabe-o. Nem o afirma, nem o reivindica. O que sabe é da existência de uma tradição popular que chegou até aos tempos de hoje. “Se o povo fala com tanta veemência, alguma razão terá”, diz António Matias Coelho, historiador e presidente da Associação Casa-Memória de Camões. Essa tradição está documentada desde 1880, quando a Câmara Municipal reuniu para se associar às celebrações do terceiro centenário da morte de Camões, argumentando em acta que se associava à efeméride não apenas por concordar com os propósitos da iniciativa mas por se dizer que, segundo uma muito antiga tradição, Camões terá vivido nesta povoação.


Vários estudiosos analisaram esta tradição. No século XIX, o visconde de Juromenha, um historiador especialista em Camões, estudou a veracidade da história e inclinou-se para o facto de Camões ter vivido em Constância. Já no século XX, duas pessoas foram fundamentais para manter viva esta tradição. A primeira foi um médico de Constância que acreditou na tradição popular e fez tudo o que estava ao seu alcance para credibilizar e divulgar esta história. Fez colóquios, publicou livros e organizou visitas a Constância. Foi numa dessas visitas que conheceu Manuela de Azevedo, redactora do Diário de Lisboa. A primeira mulher jornalista a ter carteira profissional em Portugal fez a cobertura da visita. Achou tão interessante a história e a forma como a tradição popular era vivida e transmitida pelas pessoas da vila que ganhou um grande carinho às pessoas, à vila e à história de Camões ter vivido em Constância numa casa quinhentista junto ao rio.


Os bens da associação são ícones da vila

Manuela de Azevedo acabaria por dedicar metade da sua vida a esta causa, fundando em 1977 a Associação Casa-Memória de Camões. Em parte, graças aos seus contactos e influências, a associação conseguiu três bens patrimoniais, todos eles da melhor qualidade para a terra.



O primeiro é a obra escultórica do mestre Lobo Henriques. A obra é um ícone da vila e o lugar mais visitado de Constância. “Não há ninguém que visite Constância e que não se sente junto à estátua para tirar uma fotografia”, diz António Matias Coelho.


O segundo bem patrimonial é o Jardim-Horto de Camões, projectado pelo arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles. Não se trata de um jardim ornamental. Mas uma forma original de homenagear Luís Vaz de Camões, através das plantas que refere na sua obra, tanto plantas mediterrânicas como plantas exóticas.


O terceiro e último bem patrimonial que Manuela de Azevedo deixou à associação foi o edifício da Casa-Memória de Camões. Trata-se de uma construção nova sobre as ruínas consolidadas da casa que a tradição popular diz ter sido a casa de Camões. “Essas ruínas foram muito afectadas pelo ciclone de 1941, não podiam ser recuperadas, pelo que se optou pela consolidação e classificação como imóvel de interesse público e a construção de um edifício novo, projectado pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa”, explica o historiador e presidente da associação.


Trata-se de um edifício de cinco andares, funcional, onde um dos pisos é a preservação da casa quinhentista onde Camões terá vivido. Dessa casa quinhentista, há documentação inequívoca de ser do século XVI, que demonstra a construção de uma casa nesse local. Há também um estudo feito pelo arquitecto Jorge Sobrado, em meados do século passado, em que se atesta que os materiais e as técnicas de construção dessa casa são do período quinhentista. A Associação Casa-Memória Camões não pretende enganar ou mal informar. “Não há provas documentais da vivência de Camões nessa casa”, conta o nosso interlocutor, o que afirmam com total certeza é que “a reconstrução no piso térreo do edifício Casa-Memória é de uma casa quinhentista”.


Sobre esta casa quinhentista existe um novo edifício, com inúmeras potencialidades, que poderia servir, não apenas a vila de Constância, mas toda a região do médio Tejo e o País, como a Casa de Camões que Portugal não tem. Ela existe, mas não está disponível nem acessível por falta de apoios. Essa é a razão pela qual o edifício se encontra fechado ao público.


O que é necessário para abrir a Casa Camões ao público?

“Não queremos enganar as pessoas. Não queremos inserir em prospectos turísticos uma Casa-Memória de Camões aberta ao público, onde o visitante entre e quando saia se sinta enganado, dizendo que malgastou o seu tempo e dinheiro.”


António Matias Coelho diz que a associação tem uma ideia muito precisa do que é necessário para abrir este espaço ao público. Essa visão já foi transmitida ao Ministério da Cultura. Propuseram, para cada um dos cinco pisos existentes, a definição dos conteúdos que a casa deveria comportar. Isso seria o ideal. A casa poderia abrir não com a totalidade desses conteúdos, mas com uma parte significativa. Para o nosso interlocutor seriam indispensáveis três aspectos. Em primeiro lugar, uma exposição que aludisse a Camões, que falasse da vida, da obra e da relação de Camões com Constância. A Associação tem alguns objectos que podem ajudar a compor esses conteúdos, mas não são suficientes. É necessário fazer um projecto museográfico e fazer esses conteúdos.